04/07/2012 - Quebra de produção de cana-de-açúcar na safra 2011/12 reduz lucros das grandes empresas
Por Felipe Cordeiro
As adversidades climáticas e os investimentos deficientes na manutenção dos canaviais provocaram redução no processamento de cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil, região responsável por 90% do açúcar e do etanol produzidos no país.
Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), na safra 2011/12, a moagem no Centro-Sul atingiu 495 milhões de toneladas, queda de 12% na comparação com as 560 milhões de toneladas da temporada 2010/11. Como resultado dessa quebra de produção, as maiores companhias sucroalcooleiras tiveram diminuição dos lucros no ciclo 2011/12.
O analista de açúcar e energias renováveis da Informa Economics FNP, Márcio Perin, observou que, embora a menor oferta de açúcar e etanol tenha resultado em altos preços para os produtos, o desempenho das empresas foi prejudicado pelo aumento dos custos de produção.
“Com a quebra de safra, as cotações foram maiores, entre as mais elevadas da história. Porém, as usinas ofertaram menos açúcar e etanol com a mesma estrutura produtiva”, explicou Perin. “Além disso, houve a elevação do custo da mão de obra e dos insumos.”
Cosan
A Cosan (CSAN3), maior produtora de açúcar e etanol do Brasil, obteve de abril de 2011 a março de 2012 lucro líquido de R$ 2,60 bilhões – crescimento de 237,2% ante os R$ 771 milhões verificados na safra 2010/11. Porém, de acordo com a companhia, desse montante, R$ 2,20 bilhões são efeito da formação da Raízen, join venture entre a Cosan e a Shell, anunciada em fevereiro do ano passado. Sem essa parceria, a Cosan amargaria prejuízo.
A receita líquida da Cosan aumentou 33,4% na mesma comparação, passando de R$ 18,063 bilhões para R$ 24,096 bilhões.
Por sua vez, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) atingiu R$ 2,14 bilhões no ano fiscal 2011/12, queda de 19,7% frente aos R$ 2,67 bilhões do período anterior. E a margem Ebitda também recuou, de 14,8% para 8,9%.
“A Cosan está saindo do ramo de alimentos e concentrará seus negócios nos setores de energia e infraestrutura”, declarou Perin. O analista da FNP lembrou que a companhia adquiriu por R$ 3,4 bilhões 60,1% da Companhia de Gás de São Paulo (Comgás), maior distribuidora de gás natural encanado do Brasil. Além disso, segundo fontes do mercado, a Cosan concentra os esforços para elevar a participação na América Latina Logística (ALL) – hoje está em 5,7%.
Tereos
Na temporada 2011/12, o lucro líquido da Tereos Internacional (TERI3) – empresa que englobou a Guarani – foi de R$ 157 milhões, contra R$ 196 milhões na safra 2010/11, queda de 19,9%. Já a receita líquida cresceu 20,9% e passou de R$ 5,68 bilhões para R$ 6,87 bilhões.
No ano fiscal, o Ebitda avançou 12,8%, de R$ 850 milhões para R$ 959 milhões. No entanto, a margem Ebitda diminuiu – 14,9% no ciclo 2010/11, contra 13,9% no seguinte.
Biosev
Recentemente rebatizada como Biosev (antiga LDC-SEV), a empresa sucroalcooleira do grupo francês Louis Dreyfus Commodities registrou de abril de 2011 a março de 2012 prejuízo líquido de R$ 279,45 milhões, depois de ter obtido lucro de R$ 267,68 milhões nos doze meses anteriores.
Por não ser de capital fechado, a companhia não divulga ao mercado e à imprensa balanços financeiros detalhados. No entanto, encontra-se em processo de abertura de capital na BM&F Bovespa. Em 10 de maio, solicitou na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) pedido de abertura de capital no Novo Mercado da bolsa paulista e entrou com pedido de oferta primária e secundária de ações.
Para Perin, a mudança de nome faz parte do plano da LDC de criar a imagem de uma nova empresa no setor sucroalcooleiro. “A adoção de ‘Biosev’ não foi à toa. A companhia quer se reestruturar antes de concluir o IPO [oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês]”, disse o analista da Informa Economics FNP.
São Martinho
A São Martinho (SMTO3) obteve na safra 2011/12 (de janeiro a março deste ano) lucro líquido de R$ 126,6 milhões, 11% inferior à temporada 2010/11, quando somou R$ 142,2 milhões. Já a receita líquida teve aumentou e totalizou no período R$ 1,36 bilhão, contra R$ 1,29 bilhão do ciclo anterior.
Na mesma comparação, o Ebitda recuou, passando de R$ 612,58 milhões para R$ 529,99 milhões (-13,5%), assim como a margem Ebitda (47,3% em 2010/11 contra 38,8% em 2011/12).
Apesar da redução do lucro líquido de uma safra para outra, o analista de açúcar e energias renováveis da FNP elogia o modelo de gestão da companhia, considerado um dos mais bem-sucedidos do setor sucroalcooleiro. Perin explicou que a empresa possui poucas plantas, o que facilita a gestão financeira e um melhor controle sobre o fluxo de caixa.
“Ademais, a São Martinho é tida como um exemplo de bom contato com os fornecedores de cana-de-açúcar”, afirmou Perin. “Essa relação lhe garante o abastecimento de matéria-prima. E isso é visto com bons olhos pelos investidores”, completou.
ETH
Assim como a Biosev, a ETH Bioenergia não divulga balanços de desempenho financeiro por ser uma empresa de capital fechado. Porém, para o analista de açúcar e energias renováveis da FNP, é provável que o fluxo de caixa da companhia não esteja tão positivo. “A ETH está em fase de maturação dos projetos e investimentos. Por isso, pode apresentar resultados não tão satisfatórios.”
O presidente da empresa, Luiz de Mendonça, afirmou ao jornal Valor Econômico que, em 2012, a ETH ainda investirá R$ 1 bilhão, dos quais “R$ 600 milhões serão somente na área agrícola”.
Prejuízo não só para as grandes
A Usina Santa Fé informou ao jornal Valor Econômico que registrou prejuízo líquido de R$ 17,24 milhões na safra 2011/12, encerrada em 31 de março. No período anterior, a empresa, localizada no município de Nova Europa (São Paulo), teve lucro de R$ 20,94 milhões.
O aumento dos custos saltou de R$ 190,9 milhões para R$ 201,8 milhões no mesmo período de análise. Já a receita foi de R$ 271,6 milhões, 1,2% menor que os R$ 275,9 milhões no ciclo 2010/11. A Usina Santa Fé tem capacidade para moer cerca de 2 milhões de toneladas de cana por safra.
De acordo com informações publicadas pelo mesmo periódico, a Usina da Mata teve prejuízo de R$ 392 mil no último ano fiscal, finalizado em 31 de dezembro de 2011. No ano anterior, o resultado líquido também foi negativo, em R$ 11,614 milhões. A receita da empresa, localizada em Valparaíso (São Paulo), foi de R$ 81,4 milhões, 50% menor que em 2010.
As receitas financeiras subiram de R$ 328 mil em 2010 para R$ 952 mil. A alta, porém, foi compensada pelas despesas, que aumentaram de R$ 26,5 milhões para R$ 29,2 milhões no mesmo período. A Usina da Mata tem capacidade para moer 1,2 milhão de toneladas de cana-de-açúcar por safra.
Perspectivas
De acordo com Perin, o cenário para as usinas na safra 2012/13 é ainda mais crítico. “A produção vai ser próxima à do ciclo anterior, e os custos de produção devem continuar em alta”, declarou. “Porém, o açúcar e o etanol estão com preços menores, o que deve diminuir a margem das usinas. O adoçante está em um patamar de cotações mais baixas, e o biocombustível não dá sinais de reação.”
Segundo Perin, o etanol apresenta uma tendência de preços mais desanimadora para as usinas. “O governo fixou a cotação da gasolina. E a demanda do anidro está menor em função da redução da mistura de 25% para 20%”, lembrou Perin.
Em contrapartida, o analista da FNP ressaltou que as empresas que fixaram a produção e conseguirem entregar o produto ainda podem ter um bom retorno financeiro nesta safra. “Mas aqueles que não fixaram enfrentarão problemas”, comparou.
Fonte: Informa Economics FNP
Informa Economics FNP
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